Notas de Conquista

13/09/2010

Caiu do cavalo duas vezes, mas, aos 85 anos, Pedral é uma figura da história.

Filed under: Uncategorized — Giorlando Lima @ 13:05

Falei hoje com José Pedral, ex-prefeito de Vitória da Conquista e outrora uma das mais importantes figuras da política baiana. Pedral está em Salvador, na casa do filho, Paulo, convalescendo de uma cirurgia na carótida. Falava como se estivesse gripado, mas com a voz ainda firme, apesar da idade e da cirurgia. Liguei porque pensava que hoje era 12 de setembro, dia em que ele aniversaria, “como Juscelino” – ele lembrou.

José Fernandes Pedral Sampaio completou ontem 85 anos de idade. Disse que vai viver mais quinze, até completar 100 anos. O histórico familiar lhe dá essa confiança. Seu pai viveu mais de 90 anos e perto dessa idade ainda montava a cavalo. Não sei se Pedral também monta a cavalo, mas me lembro de uma vez em que ele quase cai de um, literalmente.

No seu terceiro e último mandato na prefeitura de Vitória da Conquista Pedral vivia às voltas com uma oposição duríssima, salários e pagamentos atrasados, coleta de lixo deficiente, ameaças de CPI na Câmara, pouco dinheiro, muita dívida, pouquíssimas obras. Diferente de seu governo anterior, de 1983 a 1989, quando construiu a maioria dos equipamentos urbanos e a infra-estrutura que permitiu a Conquista chegar ao que é hoje,  aquele estava sendo uma lástima.

Alvo de uma crescente rejeição, Pedral não se dava por vencido e tentava por todos os lados uma reação. Já havia sido deixado de lado por ACM – a quem se aliara rasgando uma bela trajetória de resistência – e pagava as pesadas dívidas contraídas num tempo em que os recursos da União não chegavam, como atualmente, para fazer obras ou prestar serviços como saúde e educação*1. Os convênios eram parcos e o apoio político-administrativo do governo do Estado era quase zero. ACM fizera Pedral dobrar os joelhos, tirando-o do esquerdista PSB e trazendo-o para as hostes da antiga Arena, outrora tão combatida, mas tudo o que fez por Conquista foi entregar uma obra que se arrastava há anos, de ampliação do abastecimento de água da cidade.

Com tanta dificuldade e preocupado em não entrar para a história como um prefeito ruim, Pedral se valia de toda oportunidade para criar fato. Um deles foi chamar a imprensa para conhecer uma “genuína árvore de Pau-Brasil”, localizada em área do município já no limite com Itambé. Era uma árvore gigante e toda a equipe de governo de Pedral estava lá com ele, digamos que inaugurando a árvore rara.

Naquele mesmo dia a autenticidade do Pau-Brasil foi questionada, mas a árvore foi marcada, fotografada e saímos de lá com a informação de que o Município tombaria a área. Havia uma intenção verdadeira naquilo, via-se em José Pedral um entusiasmo juvenil com a “descoberta”. E talvez esse entusiasmo juvenil o tenha inspirado a montar em um cavalo que apareceu por lá. Mas, logo tomaria um susto.

Como era um terreno em declive, cheio de buracos e trechos irregulares, quando o animal deu uma pisada em falso e pendeu para um lado o velho e bom Pedral – não tão velho então, mas nos seus 70 anos – por pouco não se estatelou no chão. Foi amparado pela providencial ajuda de um bem disposto Nilton Júnior, seu secretário de comunicação de então, que ainda não sentia os efeitos das dezenas de cigarro que fumava diariamente.

A descoberta do Pau-Brasil não rendeu grande coisa na mídia. Nem a quase queda de Pedral. Tampouco a área foi tombada. Também não lembro se a autenticidade da árvore gigante foi comprovada. E o governo de José Pedral naquele mandato de 1993 a 1997 agonizou até perto da morte.

O líder que fora preso e cassado pela ditadura, que ajudou a fundar o MDB quando este aglutinava quase toda esquerda brasileira, que foi figura de proa do PMDB baiano, que ajudou a forjar a imagem de uma Vitória da Conquista resistente e forte, chamada de “trincheira da democracia baiana”, encerrou o seu último mandato político amargando dupla derrota. Seu candidato Vonca ficou em terceiro lugar na eleição de 1996 (vencida por Guilherme Menezes, do PT) e o seu pupilo preferido, Murilo Mármore, ficou em segundo, mas brigado com Pedral e apoiado por ACM, que confirmava naquela eleição que seu objetivo era mesmo destruir Pedral, vingar-se, talvez, de anos seguidos de derrotas e oposição.

ACM deu o empurrão que faltava para Pedral cair do cavalo. E nem Nilton Júnior pôde evitar. Não pelos cigarros que fumara, mas, entre outras razões, porque nem secretário era mais. Naquela eleição nem J. Pedral salvaria Pedral Sampaio*2. Uma pena.

Mas, hoje, o tempo é outro. José Pedral é figura da história. Claro que uma geração de mais novos só lembra dele ou comenta sobre ele quando é para brincar sobre o “bigode de Pedral” – um dos poucos erros de cálculo do engenheiro que fez grande parte da Conquista que o PT alarga e amplia hoje -, mas, quem quiser contar a história real da melhor cidade baiana (mesmo sem o litoral) terá que repetir muitas vezes o nome do construtor que vai viver pelo menos 100 anos, como ele mesmo conta.

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*1 Era um tempo sem SUS, sem Fundeb e sem as pesadas transferências de hoje. Para construir uma feira coberta, por exemplo, o município era obrigado a recorrer a financiamentos).

*2 Pedral fez sua carreira política assinando como J. Pedral e assim foi construída a sua imagem em Conquista, na Bahia e no Brasil. Assim ele era tratado e idolatrado pelos conquistenses que o acompanhavam desde 1958, quando se candidatou pela primeira vez – e perdeu. Mas, em 1987, com Waldir Pires governador e Pedral seu secretário de Transportes e Comunicações, consultores de política e publicitários (não se falava em marqueteiro, então) começaram a criar outra marca, visando uma candidatura a governador. “Nascia” o Pedral Sampaio, como os jornais passaram a tratar o político conquistense. O resto quem acompanhou sabe o que aconteceu: Pedral acabou sendo engolido pelas articulações dentro do próprio governo. Waldir Pires o preteriu em favor de Sérgio Gaudenzi e Nilo Coelho, que assumiria o governo com a saída de Waldir acabou sendo ele mesmo o candidato à reeleição (com Pedral já fora da secretaria) em 1990.

Pedral perdeu três eleições. A primeira que disputou para prefeito perdeu para Gerson Gusmão, embora tenha vencido em todas as urnas da sede do município. Perdeu em 1990 quando tentou ser deputado federal e em 2002, quando tentou voltar à política como deputado estadual. Na primeira a explicação era a força do candidato vencedor. Foi uma derrota facilmente aceita. A segunda, para deputado federal, foi resultado de erros de estratégia, de falta de sensibilidade dos especialistas de marketing. Para mim, foi vergonhoso. Pedral era um nome lembrado para o governo do estado, chegou a ter 7% das intenções de voto, porém não conseguiu eleger-se deputado federal. Mas, a derrota em 2002 foi injusta. Ali, uma geração apaixonada pelo novo ícone da política conquistense, o prefeito Guilherme Menezes, recusou dar a José Pedral um mandato que lhe permitiria repor a história, refazer uma jornada e, quem sabe, repetir como deputado o desempenho que teve nas duas primeiras vezes que foi prefeito. Ao mesmo tempo, seria um ato de justiça e gratidão para com aquele que, apesar de sua mudança para o carlismo (tenho certeza que ele se arrependeu), foi o maior prefeito da história de Vitória da Conquista, até a chegada do PT, com Lula, ao poder.

2 Comentários »

  1. EXCELENTE ARTIGO, EMBORA DISCORDE DO BIGODE, FECHE OS OLHOS E OBSERVE A RÉGIS PACHECO SEM O BIGODE E REFLITA SE SERIA POSSÍVEL TRAFEGAR ALI. QUANTO AS TENTATIVAS DE DEPUTADO UMA FOI ROUBADA NO SUL DA BAHIA EM FAVOR DO PINTO. A OUTRA PEDRAL FEZ ALIANÇA COM PAULO MAGALHÃES, ESTE NÃO TINHA VOTO PRA DAR, ALÉM DO QUE PEDRAL NUNCA QUIS FAZER CAMPANHA FORA DO MUNICÍPIO, MAS SEM DÚVIDA ALGUMA É INSUPERÁVEL, COM TODAS AS FACILIDADES QUE GUILHERME TEM HOJE, NÃO CONSEGUIRÁ BATER PEDRAL ATÉ PORQUE OBRA DE INFRAESTRUTURA EM CONQUISTA, NÃO HÁ. ESPERAMOS O AEROPORTO.

    Comentário por Paulo Nunes — 15/09/2010 @ 11:31 | Responder

    • Amigo, Paulo, que bom que leu o artigo e comentou. Escrevi uma resposta, mas acabei apagando com uma dedada errada em uma tecla qualquer do notebook. Mas a refarei. Por enquanto, agradeço a participação e sugiro que você republique oa artigo no seu muito lido blog, para dar uma força a este meu, tão esquecidinho. Rs.
      Abraço forte, dileto amigo.

      Comentário por Giorlando Lima — 15/09/2010 @ 12:02 | Responder


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